"Um amigo cónego legara em seu testamento aos rapazes coreiros uma renda, constante de certa medida de castanhas e maçãs, imposta numa quinta de Santo Estevão de Urgeses. Os coreiros indo ali todos os anos no dia de S. Nicolau receber a renda, vinham depois a cavalo e em hábitos corais oferecer da mesma às pessoas mais gradas da terra." Jornal "O Vimarenense", 12 de Dezembro de 1886.
domingo, 20 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
As Posses de Urgezes
«Josias, Emanuel e Valério, eram órfãos da roda de S. Domingos entregues à colegiada como aprendizes coveiros. Já Epifânio e Hilário eram coreiros informados com três anos, dados e cumpridos na função. Suas vozes dominadas já faziam missas cantadas no templo de Santa Maria de Guimarães, hoje da Senhora da Oliveira. Ora, estavam acometidas funções de camaradagem a Epifânio e Hilário pois seriam já estreitos conhecedores dos rituais velhos do senhor S. Nicolau patrono e protector das crianaçs e meninos estudantes, dos pequenos pescados, dos ladrões e dos comerciantes. O dia de S. Nicolau era desejado por toda a estudantada que, neste dia, tinha alforria para dar largas à sua folia, depois de tantos dias, semanas e meses de cantochão. À solta pelos campos, os jovens em gritos e gritas acordavam os nabais e as couves dos quintais por onde trilhavam nas frias madrugadas e em braçadas se apropriavam para, com água géliada da ribeira, produzir um caldo der nabos de couves, ou somente de unto porcino desviado da arca da salmoira. Acordavam assim, aquecendo o corpo e a alma, também agradecendo a S. Nicolau a liberdade e libertinagem, permitida em seu dia. Depois, em busca de pau de lenha para o Santo Nicolau apanhavam a castanha aos molhos para saborosos magustos. Toda esta juventude tinha no Santo uma inspiração, um respeito e devoção que os fazia construir afeição pela feita e seus fazedores. Muitos eram já velhos padres, senhores de hirsutas barbas, agarrado a terceiras pernas de madeira, para espreitar as brincadeiras dos mais novos, neste dia. Era assim que os cinco correios da colegiada , depois da noite animada seguiam agora para Urgezes onde, segundo a recomendação do priorado estava ele obrigado a cumprir o dízimo da dita. Era esta uma quinta que na freguesia lá existira e que velhos frades tinham doado para com o dízimo patrocinar a festa ao Santo Nicolau. A posse de Urgezes era já de fama neste tempo, pois tinha nozes, figos e castanha. Uma rasa de milho para o pão e um naco de porco e ainda salpicão, haveriam eles de tomar no lavrador António da Quinta da Carreira. O dízimo ainda possuía água pé e maçãs pequenas e perfumadas que acabavam dadas às meninas que encontravam pelo caminho. Ao chegar, os cinco devotos ao Santo Nicolau recebidos pelo frade sineiro que também era cozinheiro e fazia gala disso. Gostava com alegria de tomar um bom quartilho de tintol e de o acompanhar com naco de carne de plovo, seco ao sol. Assim, com um largo sorriso deu a posse aos rapazes, fazendo-lhes o aviso da amargura das nozes. Desciam então pelo caminho dos costeiros até aos oleiros da Cruz de Preda e lá, nova posse de caruma e pinhas para acender fogueirinhas na placa maior do burgo. Eram neste tempo estas as posses da terra o sustento dos rapazes, que mantinham a festa viva com matinas e novenas ao senhor S. Nicolau cantadas, por acordo da sossego na Capela da Senhora da Conceição, instalada no caminho do norte orientado para Bracara Augusta. As posses velhas desapareceram com o tempo que as apagou da estória, mas como o povo tem meméria, foram recuperadas há uma década pelas novas gerações tendo sido o Dízimo de Urgezes especialmente estudado e reproduzido, para que o presente e o futuro assim as entenda. O dízimo de Urgezes é pois, simbolicamente a posse mais antiga existente e, na cidade, a posse da saudade. Então Emanuel e Josias e Valério com os dois companheiros Hilário e Epifânio sabiam que tinham de dar entradas pela porta da colegiada antes de o sol nascer no dia sete. Estava cumprida a função. Com ela se construiu uma tradição que tem vida imaginário e sonho em muitas gerações de velhos estudantes de Guimarães. Este conto é dedicado a todas as gerações de nicolinos que ao amor, fraternidade e dedicação mantiveram viva as festas ao Senhor S. Nicolau. À AAELG - VN detentores da função vigilante.»
in, Contos e Lendas de Urgezes.
in, Contos e Lendas de Urgezes.
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